terça-feira, 21 de abril de 2015

Sonho.

Eu tenho uma dívida com o passado, e o Querubim, numa nota sonhada, trouxe à tona o vaso de lembranças. Algumas flores são multicoloridas e aromatizadas pelas doces cerejeiras cujos galhos representaram a alcova do tempo; outras flores, plúmbeas e inodoras, ferem como espinhos na consciência, e quando é no sonho que o anjo destila o cenário das pegadas perdidas, a sensação volta exatamente como fora no dia do domingo gelado, quando fui à casa da minha amada tentar resolver, e a envolver mais uma vez num novelo de cores. E justamente por acabar de voltar deste sonho místico é que desfaço este rolo hermético, em frases que me desprendem das celas tristes. Ainda com os resquícios da esfera dos Sonhos, minha memória pulsa como uma orquídea reveladora, e não me deixará enquanto na expurgar em versos singelos o que me aprisiona. Então o sonho me levou à tarde de domingo chuvoso em que eu deveria saldar uma dívida antiga, dos tempos que namorei uma jovem muito bonita de rosto pálido que perdera a mãe ha pouco tempo. Estávamos planejando o casamento, e no meu imóvel simples, ela fez alguns investimentos a tornar a pobre casinha um lugar confortável. E diante do medo de perder a liberdade, não pude evitar o afastamento repentino daquela que seria, no mínimo, uma grande poesia florida na minha estrada, e agora, não passa desta massa cinzenta cheia de espinhos. Se eu fosse computar o valor total da minha dívida, com juros, daria algo em torno de uns seis mil reais. Era um dinheiro razoável a quem se via desnuda de proteção e na alvorada de uma sobrevida distante da mãe. Doei-lhe força. Fomos visitar a cidade linda, em tempos que os cristais ainda reluziam de paixão aos olhos sombreados pelas dores. Depois de um ano fizemos os planos e os colocamos em andamento. Construímos um muro, algumas paredes, e um quarto simples sem telhado, era o que dava com os escassos recursos. Mas em meio a tantos labirintos, com o único apoio distante de casa, a minha sensibilidade passou a erigir a antena da proteção quando o pai da menina pálida falava sobre os bens “efêmeros”, os quais eu nunca dei valor algum. “Posso morar numa cabana”, dizia inocentemente ao velhaco que sem dúvida influiria na cabeça da filha. E o instinto de proteção me afastava a cada dia mais daquilo que seria a luz dos jardins. Passei a frequentar os bares da vizinhança, e só chegava à casa da Amada quando anoitecia. Completamente embriagado deitava e desmaiava na cama que era exatamente da mãe da menina que andava um pouco alegrinha pelos últimos planos esperançosos. Saíamos ao anoitecer pelas ruas e avenidas, pelas igrejas e bosques secretos, e não voltávamos sem um pouco daquele sorriso necessário para continuar sobrevoando as luas prateadas e apaixonadas, mas de cheias foram minguando, até chegar o derradeiro instante quando não pude impedir o afastamento de vez. Em prantos ajoelhei-me no alpendre de sua casa, e desculpei-me por tamanho disparate, o de não poder controlar as minhas vontades e até mesmo escapar e viajar a outras cidades em busca daquela fuga que se encontra nos braços de outras “bondades”. Todas essas sensações estavam apagadas, e novamente, o anjo me levou à mesma morada. Eu levava um pacote de dinheiro embaixo do braço. Doaria e tentaria reaver aquele beijo. Quando lá cheguei avistei o velho pai tomando conta dos negócios. Era uma lojinha num cubículo que abriram. Talvez estivessem escondendo de mim alguns planos audaciosos para a família, e me deixaram de fora por falta de dinheiro. Mas a verdade é que a minha amada apareceu com outro, e aí meu coração sangrou de verdade. A florzinha que carregava e doaria ao ar da felicidade escondi dos olhos dos dois que passaram por mim para evitarem o constrangimento. Porém a Irma da Amada abraçou-me com a força da saudade, e beijou-me e pediu-me para seguir o meu caminho, “Aqui você teve a sua linda história, mesmo que por um tempo encurtado”. Ao olhar no alto da estrada a minha amada não podia ver as lágrimas que vertiam os cristais. Quando voltei, ainda há pouco, senti que algumas janelas se fecham realmente, mas se abrem por algum motivo. Não estão totalmente seladas. Os resquícios e os beijos lembrados são arte de uma natureza desconhecida. Posso sentir os espinhos arranhando, mas estou em outra esfera de luz, aguardando o momento de ser melhor, mesmo que um dia o sonho me acorde dizendo novamente que tenho que ser melhor, e ser melhor, e ser melhor...! Ives vietro

9 comentários:

  1. Bom dia de feriado meu poeta querido
    E ter sonhos para cada vez ser melhor é assim mesmo
    pois tem o dom maravilhosos de escrever elogios e continue assim nos abençoando com coisas boas

    Bjussss
    Rita

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  2. Às vezes o sol do nosso dia escapa de nosso olhar... Ainda bem que existe um amanhã e outro e outro...
    Lindo, Ives!

    Beijoo'o

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  4. Parabéns pela estória, fiquei a imagina cena por cena rs, tbm gostei muito do "Livre"
    Abçs

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  5. Olá amigo
    Verdadeiro tratado filosófico. Gostei.
    Abraço

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  6. Goste do texto. É para pensar.
    " Posso sentir os espinhos arranhando, mas estou em outra esfera de luz, aguardando o momento de ser melhor, mesmo que um dia o sonho me acorde dizendo novamente que tenho que ser melhor, e ser melhor, e ser melhor...! "
    Belo e exigente...
    Beijo.

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  7. Vim agradecer a visita e pedir desculpas pela minha ausência por aqui.
    Aos poucos estarei voltando a visitar os blogs que tanto gosto, como o seu.

    Beijos
    Ani

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  8. BOA NOITE AMIGO
    Lindo demais.Amanhã é outro dia...o sol novamente vai nascer. Um feriado maravilhoso para vc.

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